Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado
Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado
As Portas Que Abril Abriu - José Carlos Ari dos Santos
A crise, quer ela seja social, económica ou política sempre serviu de pretexto à implementação de regimes totalitários. Ao longo da história sempre se assistiu à tomada do comando de países inteiros por homens que se consideraram capacitados de soluções únicas e que só eles mesmos poderiam colocar em prática; assim foi em Portugal, e assim continua a ser em muitos locais por este mundo fora. Mais comovente é ver que com maior ou menor intensidade, os próprios povos são coniventes no inicio da meada que está na génese destes mesmos regimes, ou porque o Demo-liberalismo não tem nem terá capacidades para fazer frente às depressões, ou por outro lado, porque o temor do outro extremo ideológico se apodera do censo comum e quase que se permite e considera normal todo e qualquer atentado às liberdades básicas que hoje em dia temos como asseguradas.
Até 1945 o modelo simpaticamente oferecido aos Portugueses por António de Oliveira Salazar era para todos a solução dos problemas que até ai tinham assolado a nação. Os Portugueses confiavam no Estado Novo! E o Estado Novo correspondia triunfalmente às suas necessidades e expectativas. Já após o final da segunda guerra mundial o panorama muda e a derrota do modelo Nazi imputa em Portugal uma mudança estratégica que é reflexo da consciência que o próprio regime tinha de si mesmo: um regime conservador, autoritário, anti-democrático e corporativista.
Os anos seguintes caracterizam-se por um conjunto de jogadas e manobras sujas e dogmáticas que o Estado Novo coloca em prática para controlar as vozes que contra si se manifestavam. A agonia do povo português atinge o seu auge aquando da adição da guerra colonial à conjuntura que só por si já era de um país a definhar.
A 25 de Abril de 1974 Portugal vê a sua situação alterar-se. Em poucas horas um regime que parecia inabalável cai de forma pacífica e digna!
Foram anos de adaptação a uma nova realidade, a liberdade. Essa aprendizagem, se não estou em erro, ainda hoje continua e assim continuará.
A saga continua e a memória curta ajuda! Parece que trinta e poucos anos depois os Portugueses voltam, em contexto de crise aguda, a invocar as qualidades sobrenaturais do Estado Novo e do seu afamado líder, Salazar. Os movimentos com afecção à direita começam a invocar de novo a necessidade de um novo Salazar, e de repente tudo aquilo que era repugnante e reprovável, o que era um atentado às liberdades individuais, passa a ser o remédio para todos os males. Mais que nunca os conhecidos nacionalistas extremos e os partidos aos quais se aliam estas mesmas facções societais perdem a vergonha de se dar a conhecer e de colocar até em prática as sua aspirações racistas, homofóbicas, anti-semitas… e como que por magia voltamos muitos anos atrás e estamos a reviver os anos do Salazarismo, do Fascismo e até do Nazismo. Esquecemos todas as situações nas quais aparentemente parecíamos ter errado e fazemos uma fabulosa viagem no tempo, motivada lá está pela dita crise em que Portugal se encontra mergulhado. Até porque quando estamos bem não existe necessidade de formular desculpas tão rebuscadas para os nossos problemas como colocar as causas da crise nos emigrantes provindos do leste, do Brasil, das Áfricas ou de qualquer outra parte do mundo.
Não é preciso ir mais longe do que passar pelo famoso web site YouTube, basta dar uma vista de olhos pelos comentários dos cibernautas que de forma gloriosa exaltam o regime que durante tantos anos conseguiu fazer uma coisa como ninguém faria tão bem: tornar os Portugueses num povo manifestamente ignorante e que ainda hoje procura colmatar a distância que tem relativamente aos seus parceiros europeus.
Agora pergunto eu: com os mecanismos de repressão e comprometimento da liberdade de expressão dos Portugueses que o Estado Novo colocou em prática, quem não conseguiria realizar semelhante afamada obra? Afinal não é assim tão complexo levar o escravo a dar elevado rendimento se o escravo não passa disso mesmo, um escravo!
Parece que a lição do Salazar ficou bem dada, de tal forma que perdura até aos dias de hoje.
O maior português dos ultimos séculos. No seu tempo, havia liberdade para servir o país e era proibido traí-lo. Depois do 25 de Abril (o maior insulto à nossa hitória) não há liberdade para servir o país, apenas para destruir Portugal.
Comentário de um utilizador do YouTube no vídeo relativo ao funeral de Salazar